Os homens da terra

Vinicius de Moraes Em homenagem aos trabalhadores da terra do Brasil, que enfim despertaram e cuja luta ora inicia.

Senhores Barões da terra Preparai vossa mortalha Porque desfrutais da terra

E a terra é de quem trabalha Bem como os frutos que encerra Senhores Barões da terra Preparai vossa mortalha.Chegado é o tempo de guerra Não há santo que vos valha:Não a foice contra a espada Não o fogo contra a pedra Não o fuzil contra a enxada:- União contra granada!- Reforma contra metralha!
Senhores donos da Terra Juntais vossa rica tralha Vosso cristal, vossa prata Luzindo em vossa toalha.Juntais vossos ricos trapos Senhores Donos de terra Que os nossos pobres farrapos Nossa juta e nossa palha,Vêm vindo pelo caminho Para manchar vosso linho Com o barro da nossa guerra:E a nossa guerra não falha!
Nossa guerra forja e funde O operário e o camponês;Foi ele quem fez o forno Onde assa o pão que comeis Com seu martelo e seu torno Sua lima e sua torquês,Foi ele quem fez o forno Onde assa o pão que comeis.
Nosso pão de cada dia Feito em vossa padaria Com o trigo que não colheis;

Nosso pão que forja e funde O camponês e o operário No forno onde coze o trigo Para o pão que nos vendeis Nas vendas do latifúndio Senhor latifundiário!Senhor Grileiro de terra É chegada a vossa vez A voz que ouvis e que berra É o brado do camponês Clamando do seu calvário Contra a vossa mesquinhez.
O café vos deu o ouro Com que encheis vosso tesouro A cana vos deu a prata Que reluz em vosso armário O cacau vos deu o cobre Que atirais no chão do pobre O algodão vos deu o chumbo Com que matais o operário:É chegada a vossa vez Senhor latifundiário!
Em toda parte, nos campos Junta-se a nossa outra voz Escutai, Senhor dos campos Nós já não somos mais sós. Queremos bonança e paz Para cuidar da lavoura Ceifar o capim que dá Colher o milho que doura, Queremos que a terra possa Ser tão nossa quanto vossa Porque a terra não tem dono Senhores Donos da Terra. Queremos plantar no outono Para ter na primavera Amor em vez de abandono Fartura em vez de miséria.
Queremos paz, não a guerra Senhores Donos de Terra… Mas se ouvidos não prestais Às grandes vozes gerais Que ecoam de serra em serra ,Então vos daremos guerra Não há santo que vos valha: Não a foice contra a espada Não o fogo contra a pedra Não o fuzil contra a enxada:- Granada contra granada!- Metralha contra metralha!
E a nossa guerra é sagrada A nossa guerra não falha!

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